Monday, February 14, 2005

Como torci minha vida

Sou mineiro. Nasci aos 14 de maio de 1903 na Fazenda da “Casca”, município de Itapecerica, no oeste de Minas Gerais. Filho legítimo de Francisco Antunes Correia e Maria do Carmo Diniz Correia. As primeiras letras aprendi-as no grupo escolar de Lavras, dirigido pelo então professor Firmino Costa. Ernani Negrão, companheiro daqueles saudosos tempos, hoje medico conhecido, assim descreveu para um diário mineiro a minha futebolística:

“Há 16 anos, Floriano Peixoto Correia, esse mesmo Floriano a quem deram as costas nas rodas esportivas cariocas a alcunha de marechal, formava grupo com a gurizada de Lavras, cá em Minas. Era um garoto travesso, tostado de sol, magro esperto e pronto para todas as diabruras. Duas paixões dominavam Floriano, vivendo em seu cerebro como verdadeiras obsessões: futebol e o box. No primeiro destes esportes ele deu conta promissora desde os primeiros ensaios. No segundo não foi bem sucedido. Em um treino, em meu quarto, a mão nua, ele arrancou dois incisivos de um meu primo, que era filho de pai rico, chefe político do lugar. Imaginem os apuros porque passaram – “pupilo”e “empresário”! A indenização não se poderia fazer... O Floriano abandonou o box... No futebol prosseguiu sob a minha orientação. Foi do 3o., do 2o., e finalmente do 1o. team de um clube de futebol, onde se pagava 1$000 de jóia, $200 de mensalidade e multa de $100 quando se faltava aos treinos ou se discutia em campo. Floriano devia ter, então, uns dez anos de idade. Eu o escalava para foward na posição dupla de centro-extrema, porque a nossa linha de avançar era composta só de três elementos, devido as dimensões exíguas do campo. Floriano era ágil, driblava bem, mas possuía chute fraco. Floriano lia os jornais do Rio e de São Paulo que falavam de Rubens, Friendenreich, Belfort e outros astros daqueles tempos. Os seus olhos brilhavam, pelo seu cerebro passavam o sonho confortador de ser um grande player. Certa ocasião, perguntou-me:

- Você acredita que poderei jogar com o Friedenreich?

Eu, criança também, para confortá-lo, respondi-lhe:

- Você ainda vai marcar o próprio Friedenreich.

Os tempos correram. Eu, Floriano, Luiz Sales, Paulo Cavalcanti e os outros da turma, nos separamos na vida. Cada um para o seu rumo. Cada um para a sua luta. Hoje, dezeseis anos passados, o destino reuniu tres daquela saudosa turma. Homens feitos. Responsáveis já. O Luiz é industrial; eu, um modesto medico; Floriano, funcionario no Rio e um grande astro no futebol nacional. Jogou com Friedenreich. Marcou Friedenreich. É igual a Friedenreich
.

De Grandezas e Misérias do Nosso Futebol, págs. 53 e 54.
(Procurou-se manter a ortografia e acentuaçao do texto original.
As diferenças mais evidentes foram mantidas em itálico).

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